T - E - X - T - O - S

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Impulso Irreconhecível

Existe, no ser humano, um impulso de expressão. Seja por que meio ela se dê, o homem precisa exteriorizar-se. Isso pode parecer uma origem. Dizer que, desde a invenção do homem, ou melhor, a própria invenção veio da necessidade de comunicação. Dessa necessidade tornou-se possível o “homem”.

Mas também me parece uma coisa de todo incompreensível, a necessidade de comunicar-se. E, portanto, uma origem que não é original. Uma origem possível, mas inacessível. Parece um atrito, mesmo. Como quando se chocam duas pedras, e surge a faísca, que por si só é efêmera como a duração da existência, mas que pode botar fogo em tudo.

Então também no interior do homem deve haver esse atrito. Uma pedra chamada “vida”, outra pedra chamada “eu”. E isso é o que sustenta o homem como artista. Porque da tensão surge a criação. A tensão é sempre nova, imprevisível. Não é conhecida, enfim, não tem nome. Nem é possível saber que forças estão em jogo para que a criação surja. Então o homem é, essencialmente, artista. Pois tudo que jamais criamos veio dessa tensão. Inclusive uma maneira de pensar, chamada raciocínio. Do raciocínio surge a produção, que deixa de ser nova, deixa de ser criadora. Produção torna-se, sempre, reprodução.

Nesse impulso, deve falar ainda outro impulso. Ele é solitário, o homem é solitário enquanto testemunha e ator de seus impulsos. Mas ao mesmo tempo, existe a necessidade de proximidade com outros homens. Este o outro impulso. Uma centelha, que logo se apaga, desaparece, mas que lança, no ato de acender e apagar-se, um desejo de proximidade. É só um momento, ele também.

Talvez o homem sempre esteja nesse lugar inacessível. Entre a tensão e a explosão; entre desejo e expressão. É mesmo aquele espaço vazio, entre impulso e criação. O espaço que nunca alcançamos, onde não podemos permanecer, que não é origem nem fim, mas caminho. Como na música do Caetano: “o samba é pai do prazer / o samba é filho da dor / o grande poder transformador”. Estamos sempre entre dor e prazer, gestação e nascimento. Por isso nunca paramos de criar, por isso o impulso nunca se apaga. Necessitamos constantemente sair de nós mesmos, para depois retornar. E toda sensação, toda vida guarda-se nesse movimento.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Uma Ilustração...

Nem saberia dizer-te a razão... Não as tenho. Queres-me presa da tua forma. Tu, sorrindo despreocupado, como se soubesses, sorriso de possuidor.

Me encontras, e me trazes um vestido, bem como tu gostas. Vermelho do início ao fim. Na longa cauda um rasgo por onde insinuam-se minhas pernas. Ali, onde o segredo está guardado; onde queres acreditar.

Então por um momento me retiro, peço tua licença. Dispo-me no teu vestido sangue. Quando volto, já tua boca está a salivar. Tuas mãos, rudes, sedentas – ignorantes. Pegas na minha cintura, e gozas. Assim como querias, ver-me na fôrma do teu vestido, no contorno das tuas linhas, no vermelho do teu desejo. Para que pudesses desembrulhar-me, e terias chegado, possuir-me-ias. E para sempre, sem nunca outro vestido oferecer-me. Jamais com outras mãos tocar-me.

Agora tu dormes. E vejo no teu rosto, a simples satisfação. Dormes; vives liberto, agora. Então me levanto, no silêncio afasto-me. Cobre-me o vestido, já velho, já outro. Espero por um momento, do lado de fora.

Quando vibra junto ao sol tua surpresa muda, engraço-me. Fecho a porta.

domingo, 25 de abril de 2010

Silenciosos

Falei nesse silêncio que pode meter medo, no final do último (primeiro) texto. E fiquei pensando nisso. Porque o silêncio pode, muitas vezes, causar uma situação desagradável? Talvez seja melhor falar nas palavras, e porque com elas, muitas delas, as coisas ficam mais fáceis, fluem com mais tranqüilidade.

Tenho uma opinião de que as palavras afastam. Usar palavras é repelir o outro – seja esse “outro” uma pessoa, um objeto ou um sentimento. A ação de dar nome à alguma coisa significa cerrá-la, fechá-la dentro de si. Só que este “si” refere-se a nós. Dar nome quase equivale a dar forma, e portanto delimitar algo, defini-lo.

Agora, nesse espaço esclarecido, o algo incompreensível se encaixou, e ficou ali, estático. Digamos, um bicho da selva. Uma leoa. Ela tem nome, e aqui, na cidade, falando sobre ela, não sentimos medo, nós a compreendemos. Mas e se nos encontrarmos face a face com ela, a distância do nome – a segurança dessa distância, reduzida a nada? Então pouco importa que a leoa tenha nome. Ela já não cabe dentro da forma que lha demos. Não, ela é imprevisível, pronta para derrubar, para arrancar nossas certezas, nossos conceitos mais heróicos.

Voltando ao “mundo humano”. Também entre nós existe essa facilidade. Essa segurança de um nome, seja ele qual for. É João, é médico, advogado, é velho, novo, forte, preto, é... Quem é este outro, que se pararmos num momento de silêncio deixa de ser qualquer coisa?

Sem a mediação das palavras, estamos lançados a natureza mais cruel. Porque rui a razão, a cultura, a sociedade. Sem elas, não pertencemos a lugar algum. Então seria fácil concluir “ao diabo com as palavras, pois!”. Mas... não podemos viver sem elas. Suspeito que não podemos ser sem elas. Tivemos a necessidade de criá-las, afinal...

Os silenciosos. Também há silêncio nas palavras. Parece que elas sempre remetem a esse silêncio maior e insondável. Como delicadas asas de borboleta sobre um abismo escuro. Mas quão perigosamente belo é poder voar sobre esse abismo.